sábado, 28 de janeiro de 2012

De ano para ano, de videira em videira lá andava o João pelo seu Carregal.


Nos ultimos meses de vida quando tinha um bocadinho de força, dizia:

- Dá cá as botas que estão de baixo da cama, trás as tesouras, estamos aqui todos sem fazer nada!
- Mas o pai nem sequer pode andar.
-consigo, consigo deixate de brincadeiras e dá cá aquelas calças...

 De ano para ano, de videira em videira lá andava o João pelo seu Carregal.

Hoje da-me algum prazer continuar a tratar o que me deixou, sei que esta comigo na fila das videiras que se seguem.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Petição Reposição da situação original da praça da aldeia da Senhora da Lapa do concelho de Sernancelhe.




Caros seguidores deste Blogue, o link para a petição acima anexado é uma luta que tem vindo a ser travada na minha aldeia, é importante para mim sou um dos rostos desta causa que afinal é de todos, a salvaguarda do património.
Se puderem assinem.

anexo também o link do grupo serra da lapa onde este e outros temas da aldeia que me viu crescer são apresentados.

http://www.facebook.com/groups/liberdadelapa/?ref=notif&notif_t=group_activity#!/groups/liberdadelapa/

muito obrigado.

Nuno Correia

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sérgio Godinho - Um Tempo Que Passou

Vou

uma vez mais
correr atrás
de todo o meu tempo perdido
quem sabe, está guardado
num relógio escondido por quem
nem avalia o tempo que tem

Ou
alguém o achou
examinou
julgou um tempo sem sentido
quem sabe, foi usado
e está arrependido o ladrão
que andou vivendo com seu quinhão

Ou dorme num arquivo
um pedaço de vida
a vida, a vida que eu não gozei
eu não respirei
eu não existia

Mas eu estava vivo
vivo, vivo
o tempo escorreu
o tempo era meu
e apenas queria
haver de volta
cada minuto que passou sem mim

Sim
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão

São
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há
ou dançam numa torre
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras

Enquanto o vinho corre, corre, corre
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou

http://www.youtube.com/watch?v=CD81CcT96yI

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Entardecer na Praia


Entardecer na Praia da Luz

Espreguiçados, os ramos

das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.



Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Da minha janela, Ourém.


(Alberto Caeiro)


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Oceano Nox


Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente

A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental, in "Sonetos"

Sou um guardador de rebanhos




Sou um guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei da verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

terça-feira, 3 de janeiro de 2012