domingo, 25 de janeiro de 2015

Cântico Negro



Cântico Negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'

3 comentários:

  1. CÂNTICO BRANCO

    "Vem por aqui", digo-te, mansamente
    enquanto abro os braços, num abraço
    quase certa de que seria benéfico para ti
    se me desses ouvidos, se me escutasses.
    Quando te digo, ternamente, "vem por aqui"
    olhas-me, vaga e desprendidamente
    (há, nos teus olhos, um mar de sargaços)
    desfazendo os braços, desencontrados
    e nunca vais por ali...

    Julgas que a tua vitória é, assumidamente
    gerar desentendimento, mágoa, sofrimento
    não estender a mão, a quem dela precise
    porque tu vives nessa angústia, nessa dor
    desde que abriste os olhos ao mundo, Amor.

    Dizes, não, não vou por ali! Só irás, por espaços
    onde te conduzam os teus íngremes passos...

    Se, quando perguntas, ninguém te responde
    escusado será dizer-te, sempre, "vem por aqui".

    Assim, preferes cair nos becos inundados
    rodopiar nos ventos das destemperanças
    como um trapo, como um farrapo humano
    a ires por ali...

    Pensas tu, que vieste a este mundo cão
    apenas para que uma mulher fosse desflorada
    e para colocares os teus pés, neste odioso chão
    porque tudo o que fazes, afirmas, vale zero, nada.

    Portanto, como poderão, os outros, os tais
    aconselharem-te, indicarem-te meios, estradas
    para que tu possas derrotar o teu Adamastor?...
    Circula, nas veias desses, só sangue sem ideias
    e esses gostam de situações simples e fáceis
    enquanto tu gostas do Desconhecido e da Ilusão
    da Aventura e da Viagem, que pode não ter volta...

    É melhor que partam, que te deixem, pedes-lhes
    pois esses têm casa, país, e jardins sem fim
    têm vontades e alegrias, embora mascaradas
    têm leis obsoletas, cómodas, intelectualizadas...
    Tu possuis, tu preferes a tua saudável Demência
    que te faz ser mais tu, ser mais puro, mais genuíno
    e, por pirraça, a tua boca sorri como a de um menino...

    Só Deus e o Seu mais sábio anjo te conduzem, dizes.
    Todos os outros, os tais, tiveram mães, tiveram pais
    mas tu, que julgas, ingénuo, não ter princípio nem fim
    achas que nasceste do (des)amor do Bem e do Mal.

    Suplicas, crente, que ninguém te forneça indicações
    que ninguém te faça perguntas ou peça explicações
    que ninguém te diga: "vem por aqui"
    porque a tua vida é um temporal, que se desatou
    é uma vaga gigante e dantesca, que te abalroou
    é algo muito, muito pequenino, que se alvoroçou.
    Não sabes por onde ir.
    Não sabes para onde ir
    mas sabes que não irás por ali.


    Então, se assim é, fica "comigo", ali ou aqui.

    (eu)





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  2. Boa Noite, Céu.
    Esta resposta poderá muito bem ter interrompido o descanso eterno a José Régio, certamente estará a pensar, ou hesitar de novo por onde ir mesmo que morto. Maravilho o seu Poema, gostei muito, Parabéns.



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  3. Boa noite, Nuno!

    Não era, nem é minha intenção perturbar ou interromper o eterno descanso de alguém, que já faleceu, mas, por vezes, precisamos de mostrar que tudo na vida tem duas FACES.
    Fiz este poema, ESPECIALMENTE, para si, "criatura" (risos) de quem gosto muito.
    Fico muito feliz por ter gostado do "Cântico Branco", poema que escrevi esta tarde, sob uma dor de cabeça, fortíssima. Agora, já quase passou. Sou, como as crianças: precisava que me dessem um beijinho no dói-dói, nos cabelos, portanto, para que a dor passasse, de imediato. O avô João daria, sem hesitar, e o Nuno, também, tenho a certeza.

    Quero-o feliz, ou quase.

    Beijos.

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