sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Numa caminhada em sentido inverso


Numa caminhada em sentido inverso,
tropeço como bêbado nos meus passos.
O meu corpo não é mais que um acumular de negras
  a minha mente é uma dependente na noite.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

PROCURO UMA COISA QUE NÃO TEM NOME.



PROCURO UMA COISA QUE NÃO TEM NOME. JÁ A ENCONTREI NA ÁGUA DE ALGUMAS CORREDEIRAS, NO TOPO E NA ENCOSTA DE ALGUMAS MONTANHAS, NAS NUVENS DE ALGUNS ARES, NO MATO FECHADO QUE GUARDA ALGUNS VALES. JÁ A ENCONTREI VÁRIAS E VÁRIAS VEZES - SÓ NÃO ENCONTREI SEU NOME. VOLTAREI À ÁGUA, AO AR, À TERRA, VOLTAREI ATÉ DESCOBRIR.

(AUTOR DESCONHECIDO)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Rosalinda

PRAIA AREIA BRANCA 08.2017


Rosalinda
se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira-mar

a branca areia de ontem
está cheiinha de alcatrão
as dunas de vento batidas
são de plástico e carvão
e cheiram mal como avenidas
vieram para aqui fugidas
a lama a putrefacção
as aves já voam feridas
e outras caem ao chão

Mas na verdade Rosalinda
nas fábricas que ali vês
o operário respira ainda
envenenado a desmaiar
o que mais há desta aridez
pois os que mandam no mundo
só vivem querendo ganhar
mesmo matando aquele
que morrendo vive a trabalhar
tem cuidado...

Rosalinda
se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira-mar

Em Ferrel lá p´ra Peniche
vão fazer uma central
que para alguns é nuclear
mas para muitos é mortal
os peixes hão-de vir à mão
um doente outro sem vida
não tem vida o pescador
morre o sável e o salmão
isto é civilização
assim falou um senhor
tem cuidado

quinta-feira, 13 de julho de 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Se eu te pudesse dizer


Fernando Pessoa

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.

Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). 
 - 93.

domingo, 16 de abril de 2017



Uma raiz que me agarra á terra, que me alimenta, que me mostra a verdade.
Que me diz, depois de cada inverno há sempre uma primavera enquanto existir vida.
Como as plantas nunca morremos completamente, há celulas numa raiz profunda que predura e mais tarde se transforma.


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sem dar por isso



Vamos de mãos dadas á procura das paisagens com que nos identificamos,
Tu fazes o enquadramento, escolhes o lugar no tempo, eu apenas disparo.
E assim sem dar por isso o tempo passou, a vida passou, sem dar por isso.



sábado, 25 de março de 2017

POEMA

O mar de abril / Nuno Correia / Fotografia



POEMA

A minha vida é o mar o abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 16 de março de 2017

Árvore



Álvaro de Campos

Se eu vir aquela árvore como toda a gente a vê, não tenho nada a dizer sobre aquela árvore. Não vi aquela árvore. É quando a árvore desencadeia em mim uma série conexa de emoções que a vejo diferente e justa. E na proporção em que essas ideias e emoções forem aceitáveis a toda a gente, e não só individuais, a árvore será A Árvore.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O que não te disse, confessei ao rio.


O que não te disse, confessei ao rio.
A corrente levou as palavras que tinha para te dizer para bem longe!
Pedi-lhe para me levar também para longe de ti.
- tempo ao tempo, amigo...






quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Entre o Sono e Sonho



Entre o Sono e Sonho

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O Marcio / Silva Escura / Cabreira


Eu falava-lhe da Serra da Lapa, da nascente do Rio Vouga, 
Ele falava de uma cascata deslumbrante a Cabreira em Silva Escura.
Corpo franzino grande por dentro.
Tinha todos os sonhos...
Marcio quando vejo uma cascata lembro-me de ti amigo.

'' Morre jovem o que os Deuses amam ''